Quase três.
Começo a saga da madrugada.
A saga das mentes atordoadas...
Adoro corujas.
Outro dia li uma fábula fabulosa que contava a história de um certo pavão que vivia a palestrar pela floresta, e de uma coruja, que observava aquele pavão vistoso e cheio de si cair em contradição sem nem titubear. O que lhe importava era unicamente a atenção dos outros bichos. Li e reli a história (que na verdade era tema de uma prova da faculdade), e refletindo cheguei a uma série de conclusões...
Eu queria ser a coruja, observadora e passiva.
Mas percebo que observo muito menos do que deveria, e de passivo não tenho quase nada... Que decepção! Eu que tanto adoro corujas, delas só tenho essa mania feia de trocar o dia pela noite.
Será que isso é um exemplo da velha palhaçada de dizer que "os opostos se atraem"? Ora, isso só é verdade absoluta no universo acadêmico! O que acontece é que nos admira muito a diferença. A beleza humana é a diferença, é a imperfeição, e quando nos admiramos com algo que nos parece "oposto", a verdade é que estamos impressionados com como "o outro" não tem as mesmas imperfeições que nós. E isso nos faz crer na perfeição alheia, e - no meu caso - cria uma ilusão de que a forma de agir da coruja é a mais correta.
Essa ilusão é criada simplesmente pela minha visível incapacidade de tornar-me uma coruja. Sempre fui muito mais pavão. Sempre fui o rei da contradição e amante da oratória. O cheio de razão.
Outro dia uma corujinha - aliás, uma bela corujinha - me atraiu. Desde então estou matutando e não consigo dizer o que é que foi mesmo.
Fiquei encantado com palavras que se saíssem da minha boca eu iria me sentir um completo imbecil. E agora me sinto um completo imbecil de qualquer forma, afinal o encanto ainda não passou e vivo visando o sorriso que coloria as "estupidezes corujais" ao meu lado. Fico pensando como seria um dia-a-dia de um pavão e uma coruja em completa sintonia... Não dá, né?
Digo que dá. E é aí que eu queria chegar com toda essa história de coruja, pavão, polaridade, enfim, essa embromação que aliás eu duvido que alguém esteja lendo até agora (hehehe).
Dá pra haver sintonia, mas pra isso é preciso refletir.
É preciso saber que o outro é outro, e que pro outro eu sou o outro. Que cada dia de coruja começa na hora que está quase acabando o dia de pavão, e é nessa interseção que mora a tal sintonia.
É imprescindível perceber que as mesmas "perfeições" que te atraem, te repelem, e por isso deve-se exercitar os olhos para que percebam as tais "perfeições" como benignas.
O caminho está nos olhos de cada um. O caminho é sempre refletir sobre as imperfeições a partir do "eu", nunca do outro. E é claro, ter o mínimo de percepção pra saber se dentro dessa eterna mistura de pavões e corujas, a que escolhemos vale a pena.
A saga da madrugada vai chegando ao fim, mais uma vez.
Quase quatro já, e daqui a pouco o pavão acorda.
Tenha um bom dia!
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