quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Destinatário

Emancipar... de tudo e todos, é imprescindível.
Se libertar... dos paradigmas e da expectativa que nos persegue desde o momento do nosso nascimento é mais do que necessário, é vital.

Expectativa é um dos grandes males do mundo, precede decepção. E principalmente no que nós não temos controle, pode ter certeza: haverá decepção de alguma forma.
Não crie expectativa: ela gera dor, isso eu aprendi com o meu irmão.


Você vive questionando as minhas decisões, o que eu faço ou deixo de fazer, não entende e não quer entender o porquê desse meu "desleixo", apesar de eu sempre sinalizar. Não sabe e nem quer saber o que eu quero pra mim, mas tem plena consciência do que você quer pra mim.

Não sou o que quis pra mim naquele 9 de janeiro de 1988. Não sou e não quero ser. Apesar de eu nem saber exatamente o que é que querias pro meu futuro, eu não sou!

E também não fique fazendo comparações na sua cabeça, e eu sei que fazes. Não sou estudioso como o meu irmão, mas tenho os meus métodos de aprendizado, que são de certa forma eficazes quando os utilizo. Não sou determinado como a minha irmã, mas isso tudo é pela minha ambição que julgas tão "pequena". Minha determinação existe, ela só não é doentia como a de muitos na história dessa família.

Mas ainda assim, queria que percebesse a pessoa que eu sou, e não que ficasse imaginando como eu deveria ser. Queria que você me apoiasse nessa minha revolta com tudo o que há de errado nessa família e nesse mundo. Queria, do fundo do coração, que você me amasse mais. Queria que sentisse em mim o orgulho que sente neles. Mas isso, como eu já disse, é só expectativa, e expectativa precede decepção.

E a decepção vem... Fico muito triste todas as vezes que vejo o seu olhar de desprezo pelo meu dia-a-dia "vagabundo". Lágrimas escorrem por dentro de mim todas as vezes que insiste em repetir: "você não faz nada!". Mas engulo e entendo.

Entendo que quebrei suas expectativas, e que isso te deixa muito triste. Entendo a dor que deve ser, ver o filho de 20 anos de idade sonhando em ganhar o mundo com um violão nas costas, e o pior: nem fazer por onde. Sei que você não questiona os meus fins, e sim os meios. Sei que você acha que eu tenho talento, mas sou preguiçoso.

Mas - se é que te interessa - o que você chama de preguiça, eu chamo de "timing", chamo de "hora certa". Acho que ainda não está na hora do mundo conhecer o meu talento, a minha arte. Ainda estou incompleto e tenho plena lucidez disso. Tenho que me lapidar e faço isso a cada minuto do que persistes em julgar como "ócio".

Se quer insistir em chamar de "nada" todo o meu processo criativo, se insiste em achar que meu dia-a-dia é vazio de coisas importantes, se insiste em pensar que eu sou muito menos do que eu acho que sou, tudo bem, pense o que quiser.

Mas o que eu peço, e do fundo do coração, é que pare de achar que está "jogando isso na minha cara", pois não está! Toda vez que repete suas afirmações inflexíveis e preconceituosas, eu, do lado de cá, engulo a raiva que me bate, e levanto a cabeça com a certeza de que faço o melhor pra mim.

Se quiser saber mais de mim e do que faço no meu dia-a-dia que insistes tanto em questionar, pare um segundo de questionar e apenas observe. Pare de falar e ouça. Pare de bater e sinta. Tenho certeza de que verá muito mais do que seus olhos vendados andam vendo.

Quando pequeno apanhei. Desde de beliscão a cinto, de tapa a chicote. Mas seus olhos vendados não te deixaram perceber que a cada chicotada, cada beliscão, escorriam centenas de lágrimas no meu rosto, e cada uma dessas lágrimas me dizia pra cada vez menos te escutar. Cada vez menos eu queria ser o que você sonhava pra mim, e cada vez mais eu queria ser alguém diferente, alguém iluminado. Cada dever de casa que eu perdia, e conseqüentemente apanhava, eu deixava de fazer mais dez. E esse espírito revanchista me dominou todos os dias da minha vida, até hoje.

Mas hoje respiro com novos pulmões, enxergo com novos olhos, e sei que só queria o que pensava ser o meu bem. Sei que tudo o que fez foi por amor. Sei sim. Te amo e nunca deixei de amar, mas me deixa, vá. Me deixa ter as minhas atitudes, e quando discordar, argumente comigo, diga porque acha que estou errado. Ao invés de insistir em tentar me mudar, tente me entender.


Te amo e sempre amei, mãe. Te amo e sempre amei. E as lágrimas que escorrem no meu rosto em quanto busco as melhores palavras pra finalizar esse texto, são muito mais significativas do que todas as que mencionei anteriormente.  São de redenção e de amor. Redenção por tudo o que eu tenha dito ou feito hoje, ontem ou amanhã. E de um amor que é o maior do mundo. Te amo, mãe.

2 comentários:

  1. Questionamentos são o que nos fazem refletir e seguir adiante.

    Desabafos diminuem as chances de possíveis cânceres.

    A sua maturidade e impressão de que sabe o que está dizendo sobre uma pessoa que fez só o que podia de melhor e de coração são frutos da sua imaginação e mania de perseguição. Imaginação de quem tem muito o que viver - assim como eu.

    As suas certezas de hoje serão questionadas amanhã. A vida é assim. A cabeça muda.

    Você é que está decepcionado e imaginando o que ela poderia ser. Você é quem não está realmente aceitando a outra pessoa. Ela te aceita mais do que ninguém neste mundo. E talvez te entenda melhor do que você mesmo pensa que entende.

    Lavar roupa suja em público? Acho que este texto não caberia em um blog.

    Esperar pela hora certa pode significar esperar uma eternidade, três vidas e meia ou mil.

    Não estou aqui para julgar. Mas sim para tentar questionar alguns pontos.

    Será que é isso que ela merece receber e ler? Cuidado com tantas convicções.

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  2. Mas o texto vale um elogio: está muito bem escrito!!! Muito mesmo. Parabéns

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