terça-feira, 20 de novembro de 2012

Ecos Refletem nas Paredes da Sala

Foi necessário o medo,
foi necessária a fuga
e no brusco girar do pescoço,
a desmistificação dos olhos.

Recordações se apagarão, sim, junto às vidas,
ansioso, ansioso, a-n-s-i-o-s-o
arrastar do tempo.

Ignorar o que não me soma hoje,
utópica pretensão.
Os dias correm longos, intermináveis.

Não há culpa. Não há contrato. Nunca houve nada além de nada.
Só houve um, e este quebrou, desmistificou.
O dos olhos. Falo dos olhos.

Dos olhos que viu, e viu verdade...
Ou dos olhos que viram de longe,
estes sabem muito mais.

Já sabem quais feriram e quais foram feridos.
E imaginam que os feridores ferem por terem sido feridos.
Crueldade?
Humano demasiado humano.

Já não ligam mais, cautelosamente apagam da memória
os traumas do passado recente,
repassam a ferida, o passado,
ação e reação,
já não ligam mais.

domingo, 9 de setembro de 2012

O Cochilo do Cão (Um Quarto)


O cochilo do cão
que deve guardar seus tesouros.
O cochilo do cão
que ao acordar na madrugada, late e não é ouvido.

Ah, cão amigo, dá cá essa bola que eu a lanço novamente pra que o jogo continue.
Não adianta morder forte, olhos abertos te valeriam mais que o pouco que és.
Assim me fazem ver ao menos um quarto além de ti.
Ao menos um quarto... com mais três e uns remendos bem feitos, teria um inteiro.
Se cochilas diante de tão precisos faróis,
se não os encara com a devida sinceridade,
como podes esperar por algo menos que a invasão?

Não é lucidez, mas insana defesa do andamento da espécie.

Para a segurança, fica a dica: exércitos, cerca elétrica e armas de fogo são medidas indefinitivas.
Deixam o violador em alerta, atiçam o contra-movimento.

Olhos bem abertos, verdade do gesto e da palavra.
Com ouvidos aguçados e a sensibilidade que falta ao homem
definitiva segurança seria real possibilidade.

Com ouvidos cansados e olhos fechados de desencontro,
definitiva insegurança
descaso total,
é previsível resultado.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Paredes (Eco)

Não me encare de olhos rasos.
Aparência não engana sempre.
Desnecessário o medo, a fuga, o ligeiro deslizar através de portas que eventualmente se fecharão.

Quando o tempo esgotar não sobrará nada de nada.
Menos do que o pouco que viu aqui, ou que disse ali.
Recordações se apagarão junto às vidas,
eterno reinventar do tempo.

Ignoro o que não me soma hoje,
celebro o meu próprio envelhecer.
Quando o tempo me parece mais curto
sei que ando a trilha certa.
Se os minutos parecerem intermináveis - e logo se tornarão -,
devencilharei-me da mais pura idéia que carrega o caminho.
Abandonarei trapos, memórias se desincrustarão das paredes dos meus ouvidos,
e com menos atrito navegarei mais rápido.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Ciência da Experiência

Vês aquilo?
Aquilo sou eu.

Os ruídos? Só o fim da linha. Símbolos.
Uma linguagem pouco compreendida
já que não existe ciência que a dichave em miúdos.
Incapazes de entender simples retratos do agora.

No final, são apenas ondas,
fios que ligam o essencial a um final inexistente.
O resultado da equação que me trouxe até aqui,
precisam ser experimentadas.

Experimentar. Como é bom dizer essa palavra.
Virou até comercial na TV.
Melhor que dizê-la é percebê-la na vida.

Sentir é como ser o tempo - pai da compreensão.
A razão ignora detalhes, pequenas violências...
Tenta evitar o inevitável,vem de fora pra dentro.
Da experiência pra explicação,
trilhando o caminho mais longo.

Sentir é já ter tudo explicado.
Não há obra prima que surja através da simples razão.

domingo, 11 de março de 2012

Diálogo de Domingo - O Acaso

- Lembras de mim?
- Claro.
- Não acredito. Pensei ter sido esquecido.
- Só por um instante.
- Por todos?
- Todos, não, por alguns talvez... Quem sabe amanhã não és lembrado?
- Amanhã pode ser tarde demais...
- E hoje não pode?
- Hoje não sei, ontem foi.
- É cedo demais pra falar assim.
- Cale-se! Abra mais os olhos e feche a boca.
- Não achei que fosse esse o problema...
- Pois é exatamente esse o problema, um deles...
- Um deles?
- Queres um conselho de verdade?
- Claro.
- Desligue-se de toda apatia.
- Mas eu só queria ficar tranqüilo, respirar, deixar o tempo correr, deixar o vento trazer o que vier, e se vier, ao menos será mero fruto do acaso. Daí eu não terei nada pra me queixar - nunca culpo o acaso.
- Estás cego!

Silêncio na sala de estar... O sol se pôs mais cedo, a chuva tomou seu lugar e sua luz. Trovoadas soavam, e pra deixar o diálogo mais selvagem a energia se foi junto à tempestade, mas as idéias clareavam devagar...

- Não vês que deixar o acaso fazer escolhas por ti é tratar a vida como loteria?
- E não é isso que a vida é?
- O acaso nunca é o bastante. Ele consome seu tempo - que sempre será limitado. Pra ganhar é preciso apostar, e tu não tens nada a perder!
- Sei disso, mas prefiro surpresas.
- Surpresas? Até onde eu vejo as tuas não têm sido muito prazerosas...
- Tu é quem pareces o cego agora... Pobres mortais querendo se dizer conscientes de todas as infinitas conseqüências de uma surpresa - seja ela inicialmente prazerosa ou não! Além do quê, vivo me deparando com surpresas que são prazerosas de imediato, não as temo!

A energia voltou, e no aparelho de som agora soavam os suaves acordes da introdução de "The Great Gig In The Sky". A gritaria estava ainda por vir...

- Continuas a bater na mesma tecla, esperando as conseqüências das conseqüências. O acaso do acaso.
- Por agora prefiro assim...
- Sabes o que podes perder dessa forma?
- Sei, mas não me importo. Ando me ensinando a não me importar.
- Cada um joga com as cartas que tem, e se assim desejas, torço por ti. Mas estou avisando... O acaso não vai te jogar flores todos os dias...
- Pois eu tenho certeza de que joga, todos os dias!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O Sim, O Não. Delírio. Hoje!


PARTE I - O SIM, O NÃO


Antes do sim, tudo é não. Tudo parece não.

Escuridão.

Abandonar a inércia se faz o único caminho,

me perco.

Tonto, ofuscado.


Tão magnética quanto intimidante.

Em sonhos não titubeio, não rodeio ou faço manha.

Aqui, me limito.

Me ignoro ignorando o quanto preciso mover -

Agora!


Urgência estampada em todos os olhos,

novidade, obstáculo, ternura...

Transbordas.


A calva oportunidade vem,

ou parece vir...

Enquanto penso duas vezes sinto-a escorregar como um sabonete… foi-se.

Foice.


(...)


Vazio.


(…)


PARTE II - DELÍRIO


Me conforto, não há sinal de um temido e frustrante "não".

Nem de sim...

Nem de sim? Me pergunto, e já respondo me enganando.

A verdade não sei. Queria saber…

Tento me recompor.


Tempos depois, volta, a calva,

me golpeando com olhos ainda mais hipnotizantes.

Vou ao chão.


O tempo voa em excitantes sorrisos

e entre rodeios enlouqueço:

O medo do desconhecido,

velho conhecido meu.


Mistura de medo e desejo,

um ponto caprichosamente desenhado fora dos meus limites imaginários me tira a sanidade,

me encara.


Vertigem! É isso.

Aquele medo de altura que em verdade é vontade de se jogar -

se disfarçando covardemente.


Espatifaria cautelosamente em seus olhos:

doce calafrio, delírio.



PARTE III - HOJE!


O despertador soa gritante pelas ruas da cidade. Até as pombas, assustadas, rejeitam migalhas. A hora é agora, o vagão do trem se abriu, me esperou, esperou... e faltando 40 minutos pro relógio completar meia dezena de horas de um novo dia, ela girava seu relógio de bolso. Quanto tempo eu ainda tenho?


Entrei, mas só de passagem. Conduzi-nos até o meio-campo, e na intermediária ofensiva, não arrisquei sequer uma vez: covarde. A história se repete... Mas já vejo o trem voltando, dessa vez mais magnético do que nunca. Pode passar a qualquer momento. Se eu o perder, vou ter de ir a pé. Não tenho preguiça de caminhar, mas medo de me ver só, caminhando atrás de um trem que anda dez vezes mais rápido e com os faróis focados longe de mim. Medo desse trem partir e nunca mais voltar, por isso não posso e nem quero imaginar o amanhã, mas hoje tenho que entrar.


O amanhã morreu:

Hoje!